quarta-feira, 28 de junho de 2017

paraíso perdido





Um piano na minha rua…
Crianças a brincar…
O sol de domingo e a sua
Alegria a doirar…

A mágoa que me convida
A amar todo o indefinido…
Eu tive pouco na vida
Mas dói-me tê-lo perdido.

Mas já a vida vai alta
Em muitas mudanças!
Um piano que me falta
E eu não ser as crianças!

Fernando Pessoa, Poesia do Eu


terça-feira, 6 de junho de 2017

Luz que brilha na escuridão

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola ... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não veem
só adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exata
que bruxeleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exatidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui no meio de nós.
Brilha.                                                                                       Jorge de Sena


domingo, 29 de janeiro de 2017

nascimento



Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética'

homenagem

Look up here, I'm in heaven
I've got scars that can't be seen
I've got drama, can't be stolen
Everybody knows me now

Look up here, man, I'm in danger
I've got nothing left to lose
I'm so high it makes my brain whirl
Dropped my cell phone down below

Ain't that just like me?

By the time I got to New York
I was living like a king
Then I used up all my money
I was looking for your ass

This way or no way
You know, I'll be free
Just like that bluebird
Now ain't that just like me

Oh I'll be free
Just like that bluebird
Oh I'll be free
Ai'nt that just like me?

Lazarus, David Bowie

segunda-feira, 6 de junho de 2016

It was many and many a year ago...


Annabel Lee

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea:
But we loved with a love that was more than love -
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her high-born kinsmen came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me -
Yes! that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud one night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we -
Of many far wiser than we -
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee;

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling -my darling -my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea -
In her tomb by the sounding sea.


Edgar Allan Poe

segunda-feira, 14 de março de 2016

Oh tempo!


Oh tempo, leva-me contigo
peço-te clemência
ajuda-me a curar
as cicatrizes da sobrevivência.

Leva-me para longe
enterra a minha dor,
deixa para trás
tudo aquilo que não tem valor.

Oh tempo, não me abandones
neste mundo, tão só...
onde o amor não é mais
do que uma cortina feita de pó.

Uma cortina que cai
basta uma brisa de vento
e, logo, o ego sobressai
ao desencobrir a verdade, por dentro.

Mas, um dia, tudo vai acabar
sem aviso, nesta vida
será que alguém vai lá estar
na altura da despedida?


Ana Margarida Fonseca

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Preso em liberdade





















Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro