segunda-feira, 14 de março de 2016

Oh tempo!


Oh tempo, leva-me contigo
peço-te clemência
ajuda-me a curar
as cicatrizes da sobrevivência.

Leva-me para longe
enterra a minha dor,
deixa para trás
tudo aquilo que não tem valor.

Oh tempo, não me abandones
neste mundo, tão só...
onde o amor não é mais
do que uma cortina feita de pó.

Uma cortina que cai
basta uma brisa de vento
e, logo, o ego sobressai
ao desencobrir a verdade, por dentro.

Mas, um dia, tudo vai acabar
sem aviso, nesta vida
será que alguém vai lá estar
na altura da despedida?


Ana Margarida Fonseca

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Preso em liberdade





















Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro

sábado, 27 de fevereiro de 2016

complexidade



Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

 Fernando Pessoa

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

ser livre






Voar
dançar
não crescer!
não desaprender
mas aprender de novo...

não estagnar
não se conformar!

cair
mas reerguer-se de novo!

GS

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Conto em verso da princesa roubada


Não sei outra história,
senão a que sei:
Os ladrões levaram
a filha do rei.

- Sela o teu cavalo,
que hoje há montaria.
Roubaram-me a filha,
não tenho alegria.

A ricos e pobres
faz El-Rei saber:
- Casará com ela
o que ma trouxer.

- Mas se for um monstro
feio e cabeludo?
Mas se for um cego?
Mas se for um mudo?

- Ao melhor serviço
cabe a melhor paga:
Será o meu genro
quem quer que ma traga.

Oh que lindo moço
deu com a donzela!
Como vem contente
pelo braço dela!

Nunca o Paço viu
par tão delicado:
Rosa de jardim
com seu cravo ao lado.

Que feliz o Rei,
que já tem a filha,
que já tem um genro
que é uma maravilha!

Como lhe sorri
lhe agradece tudo!...

- Mas se fosse um monstro?

Mas se fosse um mudo?

Sebastião da Gama

CAMALEÃO


Contigo sigo o meu caminho,
Aonde é que ele vai dar?
Muito para além do sonho,
Além do que se pode imaginar...
Levo-te sempre a meu lado,
Este é o caminho que escolhi.
Aonde é que ele vai dar?
Onde tu estiveres, é onde eu quero estar!

Ana Margarida Fonseca

sexta-feira, 15 de maio de 2015

vagabundo do mar

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.


Manuel da Fonseca