sexta-feira, 15 de maio de 2015

vagabundo do mar

Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.


Manuel da Fonseca

segunda-feira, 23 de março de 2015

O Tempo


Mataram o tempo
Ao matarem as pessoas.
Mataram o tempo:
O tempo de construir,
O tempo de se instruir,
O tempo de sorrir,
O tempo de cantar,
O tempo de amar,
O tempo de esperar.

Quanto tempo perdido!
Poderoso ou caído,
Vencedor ou vencido,
O Homem está alerta,
A mão sobre as armas,
O coração em lágrimas.
Quanto tempo perdido!
Palavras sem sentido!
Sangue esvaído!

E no entanto, o tempo,
É tão pouco tempo
Para ser vivido.
Temos tanto a fazer,
Sem fazer a guerra,
Temos tanto a fazer,
Sem matar pessoas,
Sem ser cruel,
Sem perder tempo.

Mas o tempo que vai passando,
Não passa julgando
Aquilo que o Homem vai delineando.
O tempo dá a vida;
O tempo tece a vida;
O tempo corta a vida;
E o Homem, muitas vezes
Só sabe ao morrer, o que vale o tempo.

Pierre Métivier, poète Charentais

Tradução GS


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"sente-te vivo"











Tem sempre presente que a pele se enruga,
O cabelo embranquece,
Os dias convertem-se em anos...

Mas o que é importante não muda;
A tua força e convicção não têm idade.

O teu espírito é como qualquer teia de aranha,
Atrás de cada linha de chegada, há uma partida.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estejas vivo, sente-te vivo.

Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amarelecidas...

Continua, quando todos esperam que desistas.
Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.

Quando não consigas trotar, caminha.
Quando não consigas caminhar, usa uma bengala.
Mas nunca te detenhas.


Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Os lobos uivam




Os lobos uivam na noite escura
  E eu pergunto sem cessar:
- Oh mãe, os lobos estão tristes?
 - Estão, filho, estão a chorar.

  - Porque choram os lobos tristes?
- Porque não têm amigos em quem confiar
  Porque os Homens os odeiam e matam
  Porque os Homens não os sabem amar.

 - Oh mãe, mas eu gosto tanto deles
   O que posso fazer para os ajudar?
- Diz-lhes o quanto eles são importantes
  Que sem eles o mundo pode acabar.

   Saí, apressado, para a rua
   Na ânsia de lhes explicar
Falei tudo o que me vai na alma
    E eles...deixaram de chorar.

Ana Margarida Fonseca

domingo, 14 de dezembro de 2014

Uma outra visão

A Sombra do Fotógrafo
 
Lentamente avança pelo matagal…
O seu olhar perscruta e regista :
A flor a desabrochar,
A abelha a esvoaçar,
O pássaro a trinar.

Mas também a grandeza
Da planície sem fim,
Do mar desvendado, das montanhas encolhidas
Pelo frio das neves eternas.

O animal que rasteja,
Que salta, que se esconde,
Que foge …
Nada escapa ao seu olhar mágico
Que os captura e prende

E depois liberta em cores e em luz
Para partilhar a sua visão com a humanidade.

GS



domingo, 30 de novembro de 2014

poder limitado


Visita

Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

Da penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.

Miguel Torga

domingo, 9 de novembro de 2014

O mundo novo






Hoje a vida mudou,
O tempo parou,
O muro caiu…

Tanto tempo assisti à separação,
Tantos anos vivi na ilusão
De um dia o ver ruir.

Afinal a espera não foi em vão,
Afinal ainda estou viva e vi
A alegria nos rostos ainda surpresos,
A música a celebrar a união
A canção a gritar – acabou!

Hoje posso duvidar se foi bom ou mau,
Posso questionar os benefícios,
Posso problematizar a questão.
Mas não posso jamais deixar de celebrar uma nova vida,
A vitória de um mundo novo
Sem divisões entre os que são livres e os que o não são,
Entre os que podem sair e os que não podem,
O fim de uma guerra sem fogo mas com a arma do medo sempre erguida.


GS