quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"sente-te vivo"











Tem sempre presente que a pele se enruga,
O cabelo embranquece,
Os dias convertem-se em anos...

Mas o que é importante não muda;
A tua força e convicção não têm idade.

O teu espírito é como qualquer teia de aranha,
Atrás de cada linha de chegada, há uma partida.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estejas vivo, sente-te vivo.

Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amarelecidas...

Continua, quando todos esperam que desistas.
Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.

Quando não consigas trotar, caminha.
Quando não consigas caminhar, usa uma bengala.
Mas nunca te detenhas.


Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Os lobos uivam




Os lobos uivam na noite escura
  E eu pergunto sem cessar:
- Oh mãe, os lobos estão tristes?
 - Estão, filho, estão a chorar.

  - Porque choram os lobos tristes?
- Porque não têm amigos em quem confiar
  Porque os Homens os odeiam e matam
  Porque os Homens não os sabem amar.

 - Oh mãe, mas eu gosto tanto deles
   O que posso fazer para os ajudar?
- Diz-lhes o quanto eles são importantes
  Que sem eles o mundo pode acabar.

   Saí, apressado, para a rua
   Na ânsia de lhes explicar
Falei tudo o que me vai na alma
    E eles...deixaram de chorar.

Ana Margarida Fonseca

domingo, 14 de dezembro de 2014

Uma outra visão

A Sombra do Fotógrafo
 
Lentamente avança pelo matagal…
O seu olhar perscruta e regista :
A flor a desabrochar,
A abelha a esvoaçar,
O pássaro a trinar.

Mas também a grandeza
Da planície sem fim,
Do mar desvendado, das montanhas encolhidas
Pelo frio das neves eternas.

O animal que rasteja,
Que salta, que se esconde,
Que foge …
Nada escapa ao seu olhar mágico
Que os captura e prende

E depois liberta em cores e em luz
Para partilhar a sua visão com a humanidade.

GS



domingo, 30 de novembro de 2014

poder limitado


Visita

Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

Da penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.

Miguel Torga

domingo, 9 de novembro de 2014

O mundo novo






Hoje a vida mudou,
O tempo parou,
O muro caiu…

Tanto tempo assisti à separação,
Tantos anos vivi na ilusão
De um dia o ver ruir.

Afinal a espera não foi em vão,
Afinal ainda estou viva e vi
A alegria nos rostos ainda surpresos,
A música a celebrar a união
A canção a gritar – acabou!

Hoje posso duvidar se foi bom ou mau,
Posso questionar os benefícios,
Posso problematizar a questão.
Mas não posso jamais deixar de celebrar uma nova vida,
A vitória de um mundo novo
Sem divisões entre os que são livres e os que o não são,
Entre os que podem sair e os que não podem,
O fim de uma guerra sem fogo mas com a arma do medo sempre erguida.


GS

domingo, 26 de outubro de 2014

Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
                                                                                                                   
Álvaro de Campos (FP)

sábado, 27 de setembro de 2014

"as outras coisas que os humanos acrescentam à vida"










Prefiro rosas, meu amor, à Pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis, in Odes