domingo, 26 de outubro de 2014
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos (FP)
sábado, 27 de setembro de 2014
"as outras coisas que os humanos acrescentam à vida"

Prefiro rosas, meu amor, à Pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indif'rençaE a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis, in Odes
sábado, 20 de setembro de 2014
várias formas de loucura

D. Sebastião,
Rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernado Pessoa, in Mensagem
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
"Nirvana"
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Ser Português
Ser Português é ser sonhador,
Preferir o mar incerto à terra dura,
Pisar o desconhecido ameaçador,
Descobrir a novidade, mesmo insegura.

Sentir saudade, é ser Português!
Despedir-se dos que se vão
Para longe, sem destino, talvez...
Mas deixando amor no coração.
Ser Português é ser paciente,
Não ser fanático, nem obediente,
Não ser organizado, nem inconsciente,
Ser Português, é ser diferente.
GS
domingo, 31 de agosto de 2014
a fragilidade da condição humana
Evolução
Fui rocha, em tempo, e fui no mundo antigo,
Tronco ou ramo de incógnita floresta ...
Onda espumei, quebrando-me na arestaDo granito, antiquíssimo inimigo ...
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo ...
Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade ...
Interrogo o infinito e às vezes choro ...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
Antero de Quental
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
tempos de escuridão III
Às gerações futuras
Salvador Dali
3
Vós que haveis de emergir das águas
Onde nos afogámos,
Lembrai-vos
Quando falardes das nossas fraquezas
Também dos tempos de escuridão
De que escapastes.
Nós que afinal marchámos, mudando mais de países do que de sapatos,
Através das guerras de classes, desesperados
Quando só havia injustiça e nenhuma indignação.
E, no entanto, sabemos bem:
Também o ódio contra a mesquinhez
Desfigura os traços,
Também a ira contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos preparar o solo para a simpatia
Não conseguimos ser simpáticos.
Vós, porém, quando chegar o tempo
Em que o Homem ajudar o outro Homem,
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.
Bertolt Brecht (tradução GS)
Salvador Dali
3
Vós que haveis de emergir das águas
Onde nos afogámos,
Lembrai-vos
Quando falardes das nossas fraquezas
Também dos tempos de escuridão
De que escapastes.
Nós que afinal marchámos, mudando mais de países do que de sapatos,
Através das guerras de classes, desesperados
Quando só havia injustiça e nenhuma indignação.
E, no entanto, sabemos bem:
Também o ódio contra a mesquinhez
Desfigura os traços,
Também a ira contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos preparar o solo para a simpatia
Não conseguimos ser simpáticos.
Vós, porém, quando chegar o tempo
Em que o Homem ajudar o outro Homem,
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.
Bertolt Brecht (tradução GS)
terça-feira, 26 de agosto de 2014
tempos de escuridão II
Às gerações futuras
2
Vim para as cidades na época do caos
Quando dominava ali a fome.
Vim para o meio das pessoas na época da revolta
E insurgi-me junto com elas.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Comi a minha comida entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Vivi o amor de forma descuidada
E olhei a natureza sem paciência.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As estradas iam dar ao pântano no meu tempo.
As palavras que pronunciava denunciavam-me e entregavam-me ao carrasco.
Consegui apenas pouco. Mas os governantes
Ficavam mais seguros sem mim, isso era a minha esperança.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As forças eram poucas. O objectivo
Ficava a grande distância.
Era nitidamente visível, embora para mim
Mal alcançável.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Bertolt Brecht (tradução GS)
(continua)
2
Vim para as cidades na época do caos
Quando dominava ali a fome.
Vim para o meio das pessoas na época da revolta
E insurgi-me junto com elas.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Comi a minha comida entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Vivi o amor de forma descuidada
E olhei a natureza sem paciência.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As estradas iam dar ao pântano no meu tempo.
As palavras que pronunciava denunciavam-me e entregavam-me ao carrasco.
Consegui apenas pouco. Mas os governantes
Ficavam mais seguros sem mim, isso era a minha esperança.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As forças eram poucas. O objectivo
Ficava a grande distância.
Era nitidamente visível, embora para mim
Mal alcançável.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Bertolt Brecht (tradução GS)
(continua)
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
tempos de escuridão I
Às gerações futuras
1
Realmente
vivo em tempos de escuridão!
A
palavra ingénua é considerada insensata. Uma testa lisa
Indica
insensibilidade. Aquele que se ri
Apenas
ainda não recebeu
A
terrível notícia.
Que
tempos são estes, em que
Uma
conversa sobre árvores é quase um crime,
Porque
encerra um silêncio sobre muitos outros crimes!
Aquele, que ali atravessa calmamente a rua,
Já
não estará acessível aos seus amigos
Que
se encontram na miséria?
É
verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas
acreditem: é só por acaso. Nada
Do
que faço me dá o direito de me poder saciar.
Por
acaso fui poupado. (Quando a minha sorte faltar
Estou
perdido.)
Dizem-me:
Come e bebe! Fica contente enquanto o tens!
Mas
como posso comer e beber, quando
Estou
a arrancar aquilo que como da boca de um faminto, e
O
meu copo de água faz falta a alguém que está a morrer à sede?
E
no entanto, como e bebo.
Também
gostava de ser sábio.
Nos
livros antigos está escrito o que é ser sábio:
Manter-se
longe dos conflitos do mundo e passar
O
curto tempo de vida sem medo.
Mas
conseguir viver sem violência,
Pagar
o mal com o bem
Não
realizar os seus desejos, mas esquecê-los em benefício
dos outros
dos outros
É
considerado sábio. (desenho: Käthe Kollwitz)
Tudo
isso não consigo:
Realmente
vivo em tempos de escuridão!
(continua)
Bertolt Brecht (tradução GS)
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
o problema do mundo está em nós
"Para mim o problema do mundo é antes de mais um problema do eu, e a solução só pode ser alcançada partindo de dentro e depois... agindo exteriormente."
Paul Auster
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do Sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali,
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Viver
A vida é um desafio constante - um conflito
entre aquilo que sonhamos e o que conseguimos alcançar
entre aquilo que esperamos e o que realizamos
entre aquilo que idealizamos e o que concretizamos.
Não é por isso que vou deixar de sonhar.
Que interessa a prudência e a idade?Que importa o tempo a passar?
É preciso sempre mudar.
Não ficar estático e imóvel,
não se conformar com aparências,
seguir o sonho sem desanimar.
Pois apesar das angústias e tristezas súbitas,
dos obstáculos inesperados,
não há nada que me obrigue a parar!
GS
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
"Pensar é estar doente dos olhos" Alberto Caeiro
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos?Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
saber ver sem estar a pensar,
saber ver quando se vê,
e nem pensar quando se vê,
nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender
e uma sequestração na liberdade daquele convento
de que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
e as flores as penitentes convictas de um só dia,
mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
nem as flores senão flores,
sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema XXIV
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
tristeza
A Pantera
O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.
O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.
Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.
Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)
O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.
O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.
Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.
Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)
domingo, 3 de agosto de 2014
"Ser um é cadeia"
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah! mas eu fugi,
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
"teimosia"
Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
Miguel Torga, Desfecho
quarta-feira, 30 de julho de 2014
"Não, não é verdade!"
Não, não é verdade!
Dancei sempre!
Escapava das grades e dançava...
Na escola, no palco, na rua
Sempre que podia dançava.
Ninguém consegue travar
Uma verdadeira bailarina!
Dancei sempre e ri!
Ri muito...
Por dentro, por fora,
Com os jovens de espírito.
Quando via a luz do entendimento brilhar num olhar espantado
Quando via a ignorância passar a conhecimento
Quando aprendia sempre algo de novo
Quando a música era mais forte do que a razão
E me obrigava a deslizar, a rodopiar, a valsar, a pular,
A viver!
Não, não perdi a vida, ganhei-a a dançar.
GS
domingo, 27 de julho de 2014
Confinamento voluntário?
Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei
Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado
Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei
Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado.
Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei
Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:
"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida."
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das Coisas
sexta-feira, 25 de julho de 2014
"Deixem-me em paz!"
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos, Lisbon Revisited
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos, Lisbon Revisited
quarta-feira, 23 de julho de 2014
angústia existencial
Se estou só, quero não 'star,
Se não 'stou, quero 'star só.
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu fiz.
A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas também se o não fizer
Fica perdido na estrada.
Fernando Pessoa
domingo, 20 de julho de 2014
tolerância
"Impressão Digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
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