sábado, 20 de setembro de 2014

várias formas de loucura



D. Sebastião,

Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernado Pessoa, in Mensagem



 





 




sexta-feira, 12 de setembro de 2014

"Nirvana"



Nirvana

Nu, como Apolo, no areal salgado.
(A roupa era o pudor da covardia.)
E agora cresçam versos a meu lado:
Estou deitado
Num lençol de poesia!

Miguel Torga

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ser Português


Ser Português é ser sonhador,
Preferir o mar incerto à terra dura,
Pisar o desconhecido ameaçador,
Descobrir a novidade, mesmo insegura.

Sentir saudade, é ser Português!
Despedir-se dos que se vão
Para longe, sem destino, talvez...
Mas deixando amor no coração.

Ser Português é ser paciente,
Não ser fanático, nem obediente,
Não ser organizado, nem inconsciente,
Ser Português, é ser diferente.

GS

domingo, 31 de agosto de 2014

a fragilidade da condição humana


Evolução

Fui rocha, em tempo, e fui no mundo antigo,
Tronco ou ramo de incógnita floresta ...
Onda espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo ...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo ...

Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade ...

Interrogo o infinito e às vezes choro ...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

tempos de escuridão III

Às gerações futuras
                                                                                                  Salvador Dali
3

Vós que haveis de emergir das águas
Onde nos afogámos,
Lembrai-vos
Quando falardes das nossas fraquezas
Também dos tempos de escuridão
De que escapastes.

Nós que afinal marchámos, mudando mais de países do que de sapatos,
Através das guerras de classes, desesperados
Quando só havia injustiça e nenhuma indignação.

E, no entanto, sabemos bem:
Também o ódio contra a mesquinhez
Desfigura os traços,
Também a ira contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos preparar o solo para a simpatia
Não conseguimos ser simpáticos.
Vós, porém, quando chegar o tempo
Em que o Homem ajudar o outro Homem,
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.

Bertolt Brecht (tradução GS)                                                                                                       







                                                                                                                                                                                                                                                    

terça-feira, 26 de agosto de 2014

tempos de escuridão II

Às gerações futuras

2
Vim para as cidades na época do caos
Quando dominava ali a fome.
Vim para o meio das pessoas na época da revolta
E insurgi-me junto com elas.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.

Comi a minha comida entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Vivi o amor de forma descuidada
E olhei a natureza sem paciência.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.

As estradas iam dar ao pântano no meu tempo.
As palavras que pronunciava denunciavam-me e entregavam-me ao carrasco.
Consegui apenas pouco. Mas os governantes
Ficavam mais seguros sem mim, isso era a minha esperança.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.

As forças eram poucas. O objectivo
Ficava a grande distância.
Era nitidamente visível, embora para mim
Mal alcançável.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.

Bertolt Brecht  (tradução GS)
(continua)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

tempos de escuridão I

Às gerações futuras

1
Realmente vivo em tempos de escuridão!
A palavra ingénua é considerada insensata. Uma testa lisa
Indica insensibilidade. Aquele que se ri
Apenas ainda não recebeu
A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime,
Porque encerra um silêncio sobre muitos outros crimes!
Aquele, que ali atravessa calmamente a rua,
Já não estará acessível aos seus amigos
Que se encontram na miséria?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é só por acaso. Nada
Do que faço me dá o direito de me poder saciar.
Por acaso fui poupado. (Quando a minha sorte faltar
Estou perdido.)
Dizem-me: Come e bebe! Fica contente enquanto o tens!


Mas como posso comer e beber, quando
Estou a arrancar aquilo que como da boca de um faminto, e
O meu copo de água faz falta a alguém que está a morrer à sede?
E no entanto, como e bebo.

Também gostava de ser sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é ser sábio:
Manter-se longe dos conflitos do mundo e passar
O curto tempo de vida sem medo.

Mas conseguir viver sem violência,
Pagar o mal com o bem
Não realizar os seus desejos, mas esquecê-los em benefício 
dos outros
É considerado sábio.                                                                (desenho: Käthe Kollwitz)
Tudo isso não consigo:
Realmente vivo em tempos de escuridão!
(continua)
                                                                                                             

 Bertolt Brecht (tradução GS)