Às gerações futuras
2
Vim para as cidades na época do caos
Quando dominava ali a fome.
Vim para o meio das pessoas na época da revolta
E insurgi-me junto com elas.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Comi a minha comida entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Vivi o amor de forma descuidada
E olhei a natureza sem paciência.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As estradas iam dar ao pântano no meu tempo.
As palavras que pronunciava denunciavam-me e entregavam-me ao carrasco.
Consegui apenas pouco. Mas os governantes
Ficavam mais seguros sem mim, isso era a minha esperança.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
As forças eram poucas. O objectivo
Ficava a grande distância.
Era nitidamente visível, embora para mim
Mal alcançável.
Assim passou o meu tempo,
Que me foi concedido nesta terra.
Bertolt Brecht (tradução GS)
(continua)
terça-feira, 26 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
tempos de escuridão I
Às gerações futuras
1
Realmente
vivo em tempos de escuridão!
A
palavra ingénua é considerada insensata. Uma testa lisa
Indica
insensibilidade. Aquele que se ri
Apenas
ainda não recebeu
A
terrível notícia.
Que
tempos são estes, em que
Uma
conversa sobre árvores é quase um crime,
Porque
encerra um silêncio sobre muitos outros crimes!
Aquele, que ali atravessa calmamente a rua,
Já
não estará acessível aos seus amigos
Que
se encontram na miséria?
É
verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas
acreditem: é só por acaso. Nada
Do
que faço me dá o direito de me poder saciar.
Por
acaso fui poupado. (Quando a minha sorte faltar
Estou
perdido.)
Dizem-me:
Come e bebe! Fica contente enquanto o tens!
Mas
como posso comer e beber, quando
Estou
a arrancar aquilo que como da boca de um faminto, e
O
meu copo de água faz falta a alguém que está a morrer à sede?
E
no entanto, como e bebo.
Também
gostava de ser sábio.
Nos
livros antigos está escrito o que é ser sábio:
Manter-se
longe dos conflitos do mundo e passar
O
curto tempo de vida sem medo.
Mas
conseguir viver sem violência,
Pagar
o mal com o bem
Não
realizar os seus desejos, mas esquecê-los em benefício
dos outros
dos outros
É
considerado sábio. (desenho: Käthe Kollwitz)
Tudo
isso não consigo:
Realmente
vivo em tempos de escuridão!
(continua)
Bertolt Brecht (tradução GS)
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
o problema do mundo está em nós
"Para mim o problema do mundo é antes de mais um problema do eu, e a solução só pode ser alcançada partindo de dentro e depois... agindo exteriormente."
Paul Auster
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do Sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali,
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Viver
A vida é um desafio constante - um conflito
entre aquilo que sonhamos e o que conseguimos alcançar
entre aquilo que esperamos e o que realizamos
entre aquilo que idealizamos e o que concretizamos.
Não é por isso que vou deixar de sonhar.
Que interessa a prudência e a idade?Que importa o tempo a passar?
É preciso sempre mudar.
Não ficar estático e imóvel,
não se conformar com aparências,
seguir o sonho sem desanimar.
Pois apesar das angústias e tristezas súbitas,
dos obstáculos inesperados,
não há nada que me obrigue a parar!
GS
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
"Pensar é estar doente dos olhos" Alberto Caeiro
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos?Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
saber ver sem estar a pensar,
saber ver quando se vê,
e nem pensar quando se vê,
nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender
e uma sequestração na liberdade daquele convento
de que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
e as flores as penitentes convictas de um só dia,
mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
nem as flores senão flores,
sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema XXIV
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
tristeza
A Pantera
O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.
O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.
Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.
Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)
O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.
O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.
Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.
Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)
domingo, 3 de agosto de 2014
"Ser um é cadeia"
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah! mas eu fugi,
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
Fernando Pessoa
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