sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Viver


A vida é um desafio constante - um conflito
entre aquilo que sonhamos e o que conseguimos alcançar
entre aquilo que esperamos e o que realizamos
entre aquilo que idealizamos e o que concretizamos.
Não é por isso que vou deixar de sonhar.

Que interessa a prudência e a idade?
Que importa o tempo a passar?
É preciso sempre mudar.

Não ficar estático e imóvel,
não se conformar com aparências,
seguir o sonho sem desanimar.

Pois apesar das angústias e tristezas súbitas,
dos obstáculos inesperados,
não há nada que me obrigue a parar!

GS

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Pensar é estar doente dos olhos" Alberto Caeiro


O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos?
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
saber ver sem estar a pensar,
saber ver quando se vê,
e nem pensar quando se vê,
nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender
e uma sequestração na liberdade daquele convento
de que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
e as flores as penitentes convictas de um só dia,
mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
nem as flores senão flores,
sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema XXIV

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

tristeza

A Pantera

O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.

O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.

Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.

Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)




domingo, 3 de agosto de 2014

"Ser um é cadeia"



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah! mas eu fugi,

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"teimosia"



Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, Desfecho

quarta-feira, 30 de julho de 2014

"Não, não é verdade!"



Não, não é verdade!
Dancei sempre!

Escapava das grades e dançava...
Na escola, no palco, na rua
Sempre que podia dançava.

Ninguém consegue travar
Uma verdadeira bailarina!

Dancei sempre e ri!
Ri muito...
Por dentro, por fora,
Com os jovens de espírito.
Quando via a luz do entendimento brilhar num olhar espantado
Quando via a ignorância passar a conhecimento
Quando aprendia sempre algo de novo
Quando a música era mais forte do que a razão
E me obrigava a deslizar, a rodopiar, a valsar, a pular,
A viver!

Não, não perdi a vida, ganhei-a a dançar.

GS

domingo, 27 de julho de 2014

Confinamento voluntário?



Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado.

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das Coisas