segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Pensar é estar doente dos olhos" Alberto Caeiro


O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos?
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
saber ver sem estar a pensar,
saber ver quando se vê,
e nem pensar quando se vê,
nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender
e uma sequestração na liberdade daquele convento
de que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
e as flores as penitentes convictas de um só dia,
mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
nem as flores senão flores,
sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema XXIV

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

tristeza

A Pantera

O seu olhar tornou-se tão cansado com as grades a passar
que nada mais consegue reter.
Parece mil grades observar
e, para lá das mil grades, nada haver.

O andar de flexíveis e fortes passadas
gira num círculo minúsculo, onde esquecida,
numa dança de força à roda de visões paradas,
permanece uma enorme vontade adormecida.

Só às vezes, a cortina da pupila, silenciosamente,
se abre...então entra uma imagem,
percorre o silêncio dos membros tristemente
e morre quando chega ao coração, qual miragem.

Rainer Maria Rilke
(tradução - GS)




domingo, 3 de agosto de 2014

"Ser um é cadeia"



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah! mas eu fugi,

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"teimosia"



Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, Desfecho

quarta-feira, 30 de julho de 2014

"Não, não é verdade!"



Não, não é verdade!
Dancei sempre!

Escapava das grades e dançava...
Na escola, no palco, na rua
Sempre que podia dançava.

Ninguém consegue travar
Uma verdadeira bailarina!

Dancei sempre e ri!
Ri muito...
Por dentro, por fora,
Com os jovens de espírito.
Quando via a luz do entendimento brilhar num olhar espantado
Quando via a ignorância passar a conhecimento
Quando aprendia sempre algo de novo
Quando a música era mais forte do que a razão
E me obrigava a deslizar, a rodopiar, a valsar, a pular,
A viver!

Não, não perdi a vida, ganhei-a a dançar.

GS

domingo, 27 de julho de 2014

Confinamento voluntário?



Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado.

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das Coisas

sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Deixem-me em paz!"

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

                                                     Álvaro de Campos, Lisbon Revisited